domingo, 18 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
...
Mais uma demonstração do redundante mundo do cepticismo idealista (o senhor da direita) perante o desejo útil que o exemplar homem branco (o senhor da esquerda) nutre pela retórica evolucionista spenceriana e pelo darwinismo social e económico que nas suas entrelinhas, e adaptação conveniente, estabelecem que, por exemplo, nos mercados, tanto como na natureza, não faz sentido ponderar questões éticas, e que nestas condições, infelizmente, só os mais aptos sobrevivem. Naturalmente que pela sua condição humana, o exemplar homem branco (o senhor da esquerda) tem alguma dificuldade em assumir explicitamente esta sua predilecção amoral de bicho pela fatalidade nas questões sociais, económicas e financeiras, o que sucede paralelamente ao facto do mundo do cepticismo idealista (o senhor da direita) estar talvez a pensar que a evolução usa uma boa parte do seu tempo e da sua energia a criar lixo, e que o lixo, pelas suas propriedades tóxicas, infectantes e pandémicas, ameaça funestamente o futuro (a evolução) da espécie como possibilidade que se deixe de bom grado às criancinhas.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
É tempo de ajudar o país e agir... ou pelo menos pensar nisso
Entristecido e convicto de que o problema disto tudo são as pessoas,
no geral, e em particular das que só sabem dizer mal, não fazendo nada no sentido de contribuir para a resolução dos problemas, venho por este meio dar o meu contributo no sentido de melhorar o já de
si muito bem conseguido projecto educativo do ministro Crato. Assim sendo,
compilei uma lista de possíveis - e desejáveis - medidas de cariz científico que, julgo, irão
potenciar todo um programa de intenções do qual o ministro é já um justo
paladino.
As possíveis medidas de cariz científico são:
Consulta de aferição por junta médica - voluntária para todos os
alunos, sendo apenas obrigatória para os que queiram ingressar no serviço público de
ensino.
Medição do crânio - voluntária para todos os alunos, excepto para
os que se encontrem entre o 1º e o 9º anos do serviço público de ensino.
Aferição da raiz antropológica dos alunos pela medição e análise da
morfologia do crânio dos encarregados de educação - voluntária para todos os
alunos que queiram prestar o exame do 4º ano no serviço público de ensino e
obrigatória para todos os respectivos encarregados de educação.
Teste de esforço invertido, em ambiente de meditação religiosa prolongada, no sentido de detectar dissimulações premeditadas,
por parte dos alunos, da sua natureza de “uomo delinquente” e suas consequentes
veleidades “simiescas” - voluntária para todos os alunos, sendo apenas obrigatória para
os que queiram frequentar as salas de aula do serviço público de ensino, exceptuando, neste caso,
os que visivelmente se prefiram pendurar nos ramos das árvores em vez de frequentar as salas de aula.
Avaliação física do lombo dos alunos - e da sua capacidade - para posterior encaminhamento profissional - voluntária para todos os alunos, sendo apenas obrigatória para os que frequentem o serviço público de ensino e que já se tenham iniciado em actividades que prejudicam a vista.
Avaliação física do lombo dos alunos - e da sua capacidade - para posterior encaminhamento profissional - voluntária para todos os alunos, sendo apenas obrigatória para os que frequentem o serviço público de ensino e que já se tenham iniciado em actividades que prejudicam a vista.
Introdução obrigatória da pergunta do maistoideu em todos os exames do
secundário - voluntária para todos os alunos, sendo apenas obrigatória para os que queiram
prestar os respectivos exames no serviço público de ensino.
Consulta de avaliação efectuada por especialista em Metoposcopia (interpretação
dos traços faciais para determinar o carácter de alguém) - voluntária para
todos os alunos, sendo apenas obrigatória para os que queiram ingressar no ensino superior
do serviço público de ensino.
Programas avançados de recuperação eugénica - voluntária para todos os
alunos excepto para os que comprovadamente são umas bestas mas
queiram continuar a encravar o serviço público de ensino.
Contratualização de parcerias público/privadas para sistemas de
serviço que garantam com eficácia todos os testes, consultas, juntas médicas e tratamentos - voluntária para todos os privados e obrigatória para o serviço público de ensino.
Moderada dedução fiscal em sede de IRS dos montantes despendidos em todos
os testes, consultas, juntas médicas e tratamentos, por parte dos encarregados de educação (medida que carece ainda de algum estudo e que, numa fase posterior, estaria dependente da concertação com os parceiros internacionais).
Introdução de bonificações nos modelos de avaliação dos professores do
serviço público de ensino pela detecção, acompanhamento e devida denúncia dos alunos
que notoriamente, ao longo do seu percurso escolar no serviço público de ensino,
denotem preferência por bananas e amendoins.
Mais ainda:
Cada agrupamento escolar deverá constituir uma junta médica formada por vários
especialistas no sentido de traçar um perfil adequado e útil de cada aluno do serviço
público de ensino.
Sugere-se a seguinte composição para esta junta:
Um Mestre em Frenologia com conhecimentos em Radiestesia mental ou que pelo menos possua pêndulo.
Um evolucionista do século 19 que ainda se encontre vivo ou se assim se comprovar impossível, um criacionista com formação científica em design inteligente.
Dois auxiliares com formação profissional - um bom e outro mau - aparelhados de régua, compasso, fio-de-prumo e craniómetro.
Dois polícias de bigode. Um bom e outro mau.
Um psicólogo – que faça os dois papeis: de bom e de mau - especialista em reverter comportamentos desviantes tais como: homosexualidade; negritude; personalidades niilistas; tendências criminosas que não sejam do foro da homossexualidade, da negritude e do niilismo em geral, e que comprovadamente não tenham uma raiz genética. Se comprovadamente as ditas tendências tiverem causa genética, substituir o psicólogo por um padre exorcista.
Um sujeito devidamente certificado em eugenia, ou com outras equivalências.
Um técnico bacharel em Metoposcopia.
Um comentador da secção de crimes de um programa da manhã.
Um endireita diplomado com experiência em entorses persistentes.
Um neurologista e um médico de clínica geral com prática em credenciais, sentados numa secretária de pau-preto, com a fotografia do Egas Moniz pendurada na parede atrás.
Uma cartomante diplomada para cobrir a variabilidade do sistema.
E para finalizar, dois seguranças negros com formação profissional. Um mau e um pior.
Espero que este meu contributo, com uma forte mas sincera motivação ideológica,
possa de facto contribuir para uma melhora significativa da educação pública a nível
nacional e da sua consequente prática... a todos os níveis.
Com serenidade.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
...
Na economia há homens que erguem grandes castelos
Na política há homens que erguem grandes muralhas que protegem grandes
castelos
Na religião há homens que tecem febrilmente as trevas para que cada nova
manhã seja um campo de sombras enegrecidas de muralhas e castelos
No amor há sombras enegrecidas de homens que matam a possibilidade do
Outro
E no mundo, o homem é também um bicho velho, acossado por fantasmas de
sempre, ressentido com a morte, incapaz de pertencer à família das coisas.
domingo, 6 de março de 2011
Tele-escola
Se a imagem não é o bastante, indicam-nos (advertem também?) os meios académicos mais esclarecidos e brilhantes de que estamos a voltar (perigosamente?) aos tempos do PREC. Nada como uma boa gaffe ligeiramente mal intencionada para nesta altura do ano nos trazer à memória as primaveras e os Marcelos.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Chupa!
Para todos os verdugos e demais enterras eis patente o paradigma do rigor: quando se dá pela omissão de 830 milhões no lado da despesa e começa tudo a berrar, logo se verifica que alguém deu um pontapé em valor idêntico no lado da receita e se cumpre o destino dialéctico e compensatório de um orçamento a contas com as "metodologias" do discurso politico. Resta só lembrar aos descrentes e demais choramingas o quanto o velhote advertira para a importância de ter em conta a variáveis ocultas.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Moderadamente presidente
Já se dizia que somos moderadamente competentes, moderadamente produtivos, moderadamente justos, moderadamente solidários, moderadamente informados, moderadamente inclusos, moderadamente labregos, moderadamente iletrados, moderadamente atléticos, moderadamente emocionais, moderadamente inteiros, moderadamente cobiçosos, moderadamente folgazões, moderadamente abjectos, moderadamente pródigos, moderadamente moderados… e podíamos ficar aqui mais dezassete minutos nisto. Contudo, apesar de todo este alarmismo, parece que somos apenas moderadamente corruptos, isto segundo a classificação da ONG Transparência Internacional .
No ranking mundial elaborado por esta organização em 2010, Portugal ocupa o 32º posto e fica logo atrás da Espanha, disputando taco a taco, nas traseiras desta, com Porto Rico e o Botsuana. No entanto esta classificação é atribuída através de um índice de percepção, coisa subjectiva, que passa pela auscultação de, entre outros, empresários e analistas do país analisado. Ora tendo em conta que somos moderadamente aldrabões e que os empresários e analistas estão moderadamente enterrados até ao pescoço nas lamas da corrupção, eu diria que estamos moderadamente bem classificados.
Agora resta saber até que ponto se pode daqui inferir que somos na politica moderadamente cínicos.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Isto era capaz de correr melhor...
... se fosse a FIFA a estabelecer o rating da república portuguesa...
sexta-feira, 23 de abril de 2010
...
Já se desconfiava da existência de um processo legislativo na comissão parlamentar de combate à corrupção que vinha compondo um centro de mesa com napron, jarra de loiça, flores de plástico e contundente possibilidade de criação de uma nova figura no direito penal: o de "arrependido"; estatuto esse que pode vir a ser aplicado também nos crimes de corrupção. Porém, nos tempos que correm, é de prever que esta figura não seja só uma abstracção, como também uma personagem desadequada perante os meandros da interpretação jurídica. Assim sendo, propõe-se aqui que seja feita desde já uma actualização a essa figura, de forma a criar o estatuto do “arrependido suplicante”, que não só acorda um dia cheio de borbulhas e disposto a confessar a prática de um crime pelo qual nunca viria a ser condenado, para posteriormente poder incriminar o outro, igualmente cheio de borbulhas, pela prática de um crime pelo qual nunca, alguém de jeito, virá a ser condenado, como também, e esta é a inovação proposta, estará capaz de suplicar em sessão pública, a sua devida e, se excelências aprouverem, bem merecida condenação. O objectivo é o de obstar às absolvições musculadas e arbitrárias com nuvens de poeira radioactiva e razoável zaragata.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Canalhas consagrados?
Não é novo, nem original, nem particularmente sofisticado. É no entanto um enorme potencial de transferência lateral. Eu, o ressabiado autor deste blogue, sinto-me neste caso dignamente representado se bem que, neste preciso momento, não me ocorre onde terei deixado a forquilha.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Come chocolates, pequena;
Para além da incompetência técnica, irresponsabilidade, falta de rigor e de gosto pelo feito, é preciso reconhecer uma forte predisposição para a vigarice, uma irrecusável atracção para o lodo, uma paixão pelo torpe e repugnante de que o homem é capaz. Sofrem talvez de patologias agudas os que destinam esta terra aos seus apetites de medíocres impudentes, filhos arrivistas da miséria, que perseguem o ouro da fuga. Talvez seja por isso que cá estamos, voluntariosamente entregues ao tecer da malha que sustenta o insustentável. Para o futuro continuaremos, até que possível, a gerar leitões vorazes - um dia mais tarde serão úteis para conduzir os homens. Perceba-se que para um porco esfomeado a única ética possível é a da saciedade; para um porco voraz, a da impossibilidade desta. Amanhã, os mais insalubres estarão prontos para a eleição, por um povo que se alimenta da sua própria chaga e que feitas as contas, convém admirar, nada lhe resta senão o seu bovino devir. Bem vistas as coisas, são os homens que alimentam os porcos e essa é a sua insanável responsabilidade - pelo mundo que deixam às criancinhas.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Talk Show
Pertinazes guerreiros que ontem, hoje e amanhã se batem hirtos e desgostosos nos campos de batalha do debate político, já sem o peito dado às balas espiraladas, mas o torso, reteso e obliquo, oferecido à vergasta dos baldes de merda. Eis os acólitos do Governo que nas trincheiras lodosas da informação, afirmam o rosto, apesar das chagas e dos escarros, da raiva defensiva. Empurrados por outros, defendem os que os antecedem, e mal suportam a espera por um caldo quente, cama fofa na retaguarda e a devida indemnização por serviços prestados contra todos os outros que não devoram o cadáver do estado.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Volto já então
Diz ali que o ex-presidente do BPP, o banco que protagonizou uma das mais aclamadas fraudes financeiras postas a descoberto no inicio do ano de 2009, está de volta. Conta que está a “trabalhar na prospeção e montagem de operações de fusão e aquisição fora de Portugal”, coisas concretas e todas acima dos 50 milhões de euros. É bom ter gente conhecida de volta, ainda capaz de tratar o milhão por tu, e além do mais, gente retilínea. Repare-se por exemplo, no título do livro que publicou sob o signo da celeuma instalada na banca e nos mercados financeiros e com o BPP prestes a ser intervencionado por ação pública. "Testemunho de um Banqueiro: a história de quem venceu nos mercados" foi com certeza um livro que em boa altura assumia o futuro com a coragem e a confiança de um eleito, e que por certo homenageava já a ventura de quem nasceu sujeito para vencer no mundo da finança e, já agora, da finíssima também. E esta retidão é tanto mais verdade como o banco privado é o paradigma de quem venceu nos mercados, até porque também a miragem de quem verdadeiramente perdeu: os contribuintes. Como o ex-presidente do BPP percebeu, prevê-se que desde tenra idade, o conceito de vencer está para além da alma dos espoliados. O destino de quem está fadado para vencer - também desde tenra idade - não conhece portas ou muros; está inclusivamente para além da mania capitalista da propriedade. É maior que qualquer garantia de retorno, do que qualquer direito abstrato - vencer é conquistar; é desmatar impiedosamente as florestas de recursos com vista a uma ascese abençoada e recolher as comissões num louvor ao Cúmulo. Dos derrotados ficará apenas o andrajo e a lamúria, e já agora, a falta de chá perante a própria derrota.
Para quem ainda esfrega os olhos e se espreguiça, o capitalismo é agora o do excesso e do estoiro, o liberalismo económico é a esta distância, um parente snob do socialismo que agoniza de tão simpático que quis parecer. Mais à frente o super-homem é já um fatinho de lycra, vazio de sentido. Avancemos então com a desorçamentação do homem novo. Viva o homem velho! Façamos dos amanheceres de amanhã a glória da avidez, da rapina.
Agora o dito está de volta e ameaça-nos com nova publicação de um livro, desta feita sobre a crise financeira de 2008; e bem se espera que nos diga o quanto, na altura, nos avisou - as caramelices do estado, as fífias da supervisão, a substância desprezível dos reguladores; tudo se oferece à valsa precisa da pena deste oráculo da finança e, já agora, da fineza também. Diz ter conhecido bem os tempos difíceis e que, com a sua douta natureza e vontade de ganhar, estará capaz de nos preparar para, assim lhe seja dado o lapso necessário, não um amanhã que canta, nem dois, mas alguma coisa que encanta desde que não chegue o amanhã.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Caçador à Coelho
Não tanto o coelho, a cartola, a maravilha e a Alice. O que hoje importa é que tudo isto, disse ele, mais não passe de uma manobra, urdida e sabuja, para que não se encontrem os culpados. Com devido segredo solte-se a lotaria e convoquem-se os arguidos que nem sequer sabem - e ele é corpo estupefacto com tudo isto que agora lhe calha - para que possam berrar por justiça; serão então testemunhas desta e aventureiros da pudicícia. Apurem-se os factos para que se agite consequentemente o chicote punitivo, mas por amor de deus, é ele quem o clama, encontrem-se os culpados que se ocultam para lá do que se indicia.
Não tanto o país, a cartola, a maravilha e a Alice. O coelho num pulo entrou para dentro do espelho.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Há Natal por aí...
"O Natal é uma noite e um resto do dia seguinte em que lá tento arranjar uma prenda que ocupe o serão cá à santíssima trindade: pai, mãe e filha. Lá arranjei desta vez um vídeo da Mariza mas como não agradou a pai ainda consegui sair-me razoavelmente com uns cds empoeirados da Edith Piaf que estavam lá por casa da mãe. sabe-se lá por que portas travessas, a música amamentou os três ao mesmo tempo. Cada qual terá sacado do nutriente mais em falta. Já quanto ao bacalhau, era tanta a gula que tive de ficar a chás o resto do serão."
Por Kaka
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Por conta
Fungível a desvalorização, ambígua, deslavada, que foi feita por responsáveis partidários, mesmo daqueles que se prefiguram como concorrentes, relativamente ao caso da compra de votos por parte de um partido político e por isso mesmo, relativamente a caros concidadãos, com certeza também responsáveis, que por lá estariam, à época, e que pretende questões mais importantes a tratar numa altura em que o país vai a votos - problemas nacionais sérios, graves, a resolver; políticas substantivas, claras e de verdade, que para lá da proposta não pretendem perder norte com manobras subterrâneas de condicionamento, distração, esquemas de baixa política. Pessoas estas, que ainda ontem e antes de ontem, e já há algum tempo, não perderam a oportunidade de criar, aproveitar, chupar, esgravatar todos os factos políticos capazes de manobrar seletivamente a narrativa pelas entranhas do lodo. Responsáveis e representantes da capacidade destes partidos para a batota política, sempre que for essa a exigência de quem estiver no turno do poder, numa sala, onde se metem as manápulas sujas em cima da mesa, ávidas, e se decide relativamente ao negócio, de quanto tem de valer.
A base da democracia não importa, o seu conceito de verdade, a honestidade que lhe possa ser devolvida; há coisas mais importantes, prementes, há Verdades que não esperam e que têm de ser ouvidas com clareza, impunes ao ruído desse aviltamento, dessa denúncia amarga, dessa incontornável visão, de que lá no princípio, lá mesmo onde as coisas se iniciam e a democracia se faz vontade do povo, há podre e bafio; nas fundações da carne, com a passagem do tempo, há liquido encardido a pulsar por dentro.
A base da democracia não importa, o seu conceito de verdade, a honestidade que lhe possa ser devolvida; há coisas mais importantes, prementes, há Verdades que não esperam e que têm de ser ouvidas com clareza, impunes ao ruído desse aviltamento, dessa denúncia amarga, dessa incontornável visão, de que lá no princípio, lá mesmo onde as coisas se iniciam e a democracia se faz vontade do povo, há podre e bafio; nas fundações da carne, com a passagem do tempo, há liquido encardido a pulsar por dentro.
sábado, 1 de agosto de 2009
Escavaca que isso passa
Há que tempos vinha eu utilizando o estado de degradação física e porventura a falta de envergadura ética do tecto da minha casa de banho, da infiltração que o assola, como arma de arremesso político contra o “arco do poder”, até que por fim, esta semana, uma resolução de ordem superior determinou a necessidade de reparar o dito, por motivos que só um momento de fraqueza da minha senhoria poderiam justificar.
Apareceu-me à porta um senhor que se apresentou como o gajo. O gajo? Sim, venho pintar… Ah pois…
O gajo trazia atracado o técnico canalizador, o sr. Vítor, bem nascido no Cacém, para ver do que se passava com o tecto da casa de banho; e tendo ficado à porta desta, numa avaliação que lhe custou não mais do que dois segundos, o senhor proclamou “Ah pois é, isto tem de ir tudo abaixo”. Reativamente suspirei baixinho, mas depois tive de reconhecer que é isso mesmo: se há coisa que por cá passa de pais para filhos é esta facilidade com que se avaliam as mais diversas situações e se postula este princípio reparador do “tem de ir tudo abaixo” como forma de unificar as possíveis vontades. É uma forma própria de autocrítica coletiva, que se esconde na repreensão que o próximo nos suscita; alguém que fez aquilo; aquilo que está ou ficou mal feito e que agora vai ter de ir abaixo. Por cá, aparentemente, pouco resta que não fosse melhor ir abaixo, e no limite, eventualmente, bem que poderia ser a expressão de uma estratégia de fundo da evolução, codificando o instinto numa adaptação de recurso, talvez até verdadeiramente moderna e revolucionária. Se por exemplo pensarmos em como o sistema global ameaça “gripar”, o “vai ter de ir tudo abaixo” poderia bem ser o El Dourado da metafísica, o remédio eficaz para a dor, o maravilhoso reset do universo.
O problema é que falta coragem a quem pondera este princípio e numa terra onde tanto se proclama que tudo tem de ir abaixo e na verdade muito pouco se manda abaixo, e muito do que vai abaixo, vai porque calhou e faz resultar processos incestuosos nos tribunais para apurar responsabilidades, o que resta é a condição de que tudo é passível de flutuar entre a necessidade de “fazer” e o solavanco do “espera aí que agora não me dá jeito fazer… ou que se faça”.
Estamos pois encalhados em praias do projecto/estudo, mas já com o estaminé montado, a fazer negócio.
Uns dias mais tarde o canalizador, o sr. Vítor, telefonou-me, informando-me que seria necessário “executar operações de peritagem” na minha casa de banho, a ver da minha disponibilidade e talvez saber das minhas opiniões sobre produtos de higiene. Perante o considerável potencial dos termos utilizados confesso que estremeci e passei a escrever um diário secreto. Operações de peritagem parecia-me bem, que a minha casa de banho merecia, sempre o mereceu!
Chegou-me lá o sr. Vítor, desta feita com algum pudor, que ia ver... executar talvez, operações de peritagem.Por isso lá o deixei por momentos, porque transportado para uma condição que não é tanto a nossa, mas que a realizamos à nossa maneira: a da nomenclatura técnica e do seu mundo de inúmeros mistérios e surpresas. Fiquei ciente e absolutamente convencido de que a utilização do “executar operações de peritagem” foi possivelmente a mais simpática das formas que o técnico canalizador, o sr. Vítor, encontrou para prestar informação de que me ia escavacar os lavabos sem no entanto os deitar abaixo. Uma grande desilusão, porque talvez o grande problema da minha casa de banho seja somente o facto de ainda estar de pé. Mas não só irá ficar assim, como depois de devidamente escavacada se percebeu que o escavacanço não estava capaz de apurar causas relativamente à infiltração de água. E de facto, o problema passou para o andar de cima; que metia uma coisa com sifão e tampa; que não estava nas melhores condições e que para tal se gastou dois minutos no sentido de desenrascar uma resolução de recurso; e desenrascou-se por dois ou três dias até que o problema se manteve e lá veio o sr. Vítor escavacar mais um bocado. Depois soldou, colou, aplicou, deu mais um jeitinho na coisa e perante o insucesso voltou para escavacar. O que resta hoje, é que o problema não foi ainda totalmente resolvido e é com alguma perplexidade que aguardo desenvolvimentos, baralhado de tal modo que já nem faço ideia se desta vez o sr. Vitor vem para escavacar ou para desenrascar.
Talvez seja esta uma das modalidades que tanto nos animam - partimos para as coisas capazes de fazer melhor que qualquer um e para isso vamos a jogo apostando a necessidade de mandar tudo abaixo. Chegados lá, onde podemos de alguma forma interferir com a teimosia do mundo material, acabamos por negociar a coisa, chamamos-lhe nomes, e se realmente não dá jeito mandar tudo abaixo, começamos a escavacar. Começamos a escavacar porque não pensámos noutra coisa que não mandar tudo abaixo. Escavacamos e depois logo se vê, alguma coisa se há-de desenrascar e lá isso desenrascamos que é uma coisa parva. Passamos a vida a desenrascar, mas a chatice toda é que montamos a coisa deterministicamente e antes do desenrascar vem muitas das vezes o escavacar. Escavacamos para desenrascar – escavaca, desenrasca, escavaca, desenrasca, escavaca, desenrasca e a resolução, empurramo-la com a barriga para depois, muitas das vezes até ao infinito como se fossemos um bando de Fichtes labregos. Na relação com a “coisa” parece que por vezes ficamos presos algures entre a crítica moderna e o idealismo, numa espécie de bolha onde não há forma de ultrapassar a contradição. O pavor da hora em que tudo acaba arrasta-nos para a bricolage e acontece estarmos capazes de reparar o mundo com elásticos e fita-cola, se houver a mais pequena possibilidade de isso adiar por um instante o devir.
Enquanto aqui estou, acidentalmente, como sempre em todas as coisas, neste ram-ram onde se produz escavacanço, onde se escavaca o futuro como se não houvesse amanhã, a mim, resta-me pois aguardar pelo sr. Vítor e pela sua forma airosa de passar pela vida.
Amanhã haverá ainda as oposições que anunciam deitar tudo abaixo assim que se instalarem no governo do país… promessas, promessas, digo eu com enfado, e o reparo que me ocorre é que me correria muito melhor o texto se em vez de “rasgar, rasgar, rasgar!” se dissesse “escavacar, escavacar, escavacar!”
Apareceu-me à porta um senhor que se apresentou como o gajo. O gajo? Sim, venho pintar… Ah pois…
O gajo trazia atracado o técnico canalizador, o sr. Vítor, bem nascido no Cacém, para ver do que se passava com o tecto da casa de banho; e tendo ficado à porta desta, numa avaliação que lhe custou não mais do que dois segundos, o senhor proclamou “Ah pois é, isto tem de ir tudo abaixo”. Reativamente suspirei baixinho, mas depois tive de reconhecer que é isso mesmo: se há coisa que por cá passa de pais para filhos é esta facilidade com que se avaliam as mais diversas situações e se postula este princípio reparador do “tem de ir tudo abaixo” como forma de unificar as possíveis vontades. É uma forma própria de autocrítica coletiva, que se esconde na repreensão que o próximo nos suscita; alguém que fez aquilo; aquilo que está ou ficou mal feito e que agora vai ter de ir abaixo. Por cá, aparentemente, pouco resta que não fosse melhor ir abaixo, e no limite, eventualmente, bem que poderia ser a expressão de uma estratégia de fundo da evolução, codificando o instinto numa adaptação de recurso, talvez até verdadeiramente moderna e revolucionária. Se por exemplo pensarmos em como o sistema global ameaça “gripar”, o “vai ter de ir tudo abaixo” poderia bem ser o El Dourado da metafísica, o remédio eficaz para a dor, o maravilhoso reset do universo.
O problema é que falta coragem a quem pondera este princípio e numa terra onde tanto se proclama que tudo tem de ir abaixo e na verdade muito pouco se manda abaixo, e muito do que vai abaixo, vai porque calhou e faz resultar processos incestuosos nos tribunais para apurar responsabilidades, o que resta é a condição de que tudo é passível de flutuar entre a necessidade de “fazer” e o solavanco do “espera aí que agora não me dá jeito fazer… ou que se faça”.
Estamos pois encalhados em praias do projecto/estudo, mas já com o estaminé montado, a fazer negócio.
Uns dias mais tarde o canalizador, o sr. Vítor, telefonou-me, informando-me que seria necessário “executar operações de peritagem” na minha casa de banho, a ver da minha disponibilidade e talvez saber das minhas opiniões sobre produtos de higiene. Perante o considerável potencial dos termos utilizados confesso que estremeci e passei a escrever um diário secreto. Operações de peritagem parecia-me bem, que a minha casa de banho merecia, sempre o mereceu!
Chegou-me lá o sr. Vítor, desta feita com algum pudor, que ia ver... executar talvez, operações de peritagem.Por isso lá o deixei por momentos, porque transportado para uma condição que não é tanto a nossa, mas que a realizamos à nossa maneira: a da nomenclatura técnica e do seu mundo de inúmeros mistérios e surpresas. Fiquei ciente e absolutamente convencido de que a utilização do “executar operações de peritagem” foi possivelmente a mais simpática das formas que o técnico canalizador, o sr. Vítor, encontrou para prestar informação de que me ia escavacar os lavabos sem no entanto os deitar abaixo. Uma grande desilusão, porque talvez o grande problema da minha casa de banho seja somente o facto de ainda estar de pé. Mas não só irá ficar assim, como depois de devidamente escavacada se percebeu que o escavacanço não estava capaz de apurar causas relativamente à infiltração de água. E de facto, o problema passou para o andar de cima; que metia uma coisa com sifão e tampa; que não estava nas melhores condições e que para tal se gastou dois minutos no sentido de desenrascar uma resolução de recurso; e desenrascou-se por dois ou três dias até que o problema se manteve e lá veio o sr. Vítor escavacar mais um bocado. Depois soldou, colou, aplicou, deu mais um jeitinho na coisa e perante o insucesso voltou para escavacar. O que resta hoje, é que o problema não foi ainda totalmente resolvido e é com alguma perplexidade que aguardo desenvolvimentos, baralhado de tal modo que já nem faço ideia se desta vez o sr. Vitor vem para escavacar ou para desenrascar.
Talvez seja esta uma das modalidades que tanto nos animam - partimos para as coisas capazes de fazer melhor que qualquer um e para isso vamos a jogo apostando a necessidade de mandar tudo abaixo. Chegados lá, onde podemos de alguma forma interferir com a teimosia do mundo material, acabamos por negociar a coisa, chamamos-lhe nomes, e se realmente não dá jeito mandar tudo abaixo, começamos a escavacar. Começamos a escavacar porque não pensámos noutra coisa que não mandar tudo abaixo. Escavacamos e depois logo se vê, alguma coisa se há-de desenrascar e lá isso desenrascamos que é uma coisa parva. Passamos a vida a desenrascar, mas a chatice toda é que montamos a coisa deterministicamente e antes do desenrascar vem muitas das vezes o escavacar. Escavacamos para desenrascar – escavaca, desenrasca, escavaca, desenrasca, escavaca, desenrasca e a resolução, empurramo-la com a barriga para depois, muitas das vezes até ao infinito como se fossemos um bando de Fichtes labregos. Na relação com a “coisa” parece que por vezes ficamos presos algures entre a crítica moderna e o idealismo, numa espécie de bolha onde não há forma de ultrapassar a contradição. O pavor da hora em que tudo acaba arrasta-nos para a bricolage e acontece estarmos capazes de reparar o mundo com elásticos e fita-cola, se houver a mais pequena possibilidade de isso adiar por um instante o devir.
Enquanto aqui estou, acidentalmente, como sempre em todas as coisas, neste ram-ram onde se produz escavacanço, onde se escavaca o futuro como se não houvesse amanhã, a mim, resta-me pois aguardar pelo sr. Vítor e pela sua forma airosa de passar pela vida.
Amanhã haverá ainda as oposições que anunciam deitar tudo abaixo assim que se instalarem no governo do país… promessas, promessas, digo eu com enfado, e o reparo que me ocorre é que me correria muito melhor o texto se em vez de “rasgar, rasgar, rasgar!” se dissesse “escavacar, escavacar, escavacar!”
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